Categoria: Nacionais

A lista negra mais curta do mundo

(Alexander Neubacher, DER SPIEGEL)
 
Os chefes de Estado das nações mais poderosas do mundo pareciam um pouco cansados, mas extremamente satisfeitos. Na quinta-feira da semana retrasada, após horas de negociações, eles haviam finalmente acertado um plano para um sistema financeiro global novo e mais transparente.

“A era do sigilo bancário terminou”, concluía o comunicado oficial emitido no fim da cúpula do G-20 em Londres. De agora em diante, escreveram os autores, “jurisdições não cooperativas, incluindo paraísos fiscais”, podem esperar ter de enfrentar sanções e ser colocadas numa lista de países que descumprem a “norma internacional para a troca de informações fiscais”.

A ameaça produziu resultados espantosos. Menos de 120 horas depois do encerramento da cúpula, a Organização para a Cooperação Econômica e o Desenvolvimento (OCDE) publicou a lista negra mais curta de todos os tempos – com exatamente zero entradas.

Aparentemente, não existe hoje um único país disposto a servir de refúgio para capitais internacionais.

O fato de que todos os paraísos fiscais do mundo parecem ter desaparecido da noite para o dia é o resultado, sobretudo, de uma hábil diplomacia. Até os mais notórios centros financeiros offshore conseguiram rapidamente se livrar de todas as suspeitas de ajudar e apoiar praticantes de evasão fiscal.

A tarefa não foi exatamente dificultada para os antigos transgressores. Tudo que um país precisou fazer para ser retirado da lista e aceito no círculo dos supostamente purificados foi oferecer à OCDE uma garantia solene de que pretendia cumprir acordos internacionais no futuro. Resta a ver se isso é um passo à frente.

Em razão dessas garantias, o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, dividiu a comunidade internacional em meros dois grupos. O primeiro inclui países que se comportam de maneira exemplar, como todas as nações do G-20. Esse passo assegurava que a cúpula de Londres não seria obstruída por autocríticas.

O segundo grupo incluiu aqueles países que são teoricamente contrários à evasão fiscal internacional, mas até agora nem sempre viram isso como uma razão para traduzir convicções em ação – instituindo regras concretas segundo tratados de dupla taxação, por exemplo.

Para especialistas, a lista da OCDE oferece um punhado de surpresas, é claro. Por exemplo, praticamente nenhuma autoridade tributária acreditaria que a chamada “lista branca” da OCDE incluiria alguns dos mais notórios paraísos fiscais do passado recente, como as Ilhas Guernsey e Jersey no Canal da Mancha.

Outro resultado espantoso do novo sistema é que a China é subitamente considerada um país modelo, apesar de suas chamadas Regiões Administrativas Especiais, Hong Kong e Macau, serem consideradas paraísos fiscais. E beira ao milagre que até as Ilhas Cayman, com uma população de 50 mil habitantes e 80 mil companhias registradas, tenham sido colocadas na lista cinza da OCDE de países dispostos a ser reformados.

A realidade é que diplomatas de muitos Estados gastaram longos dias assegurando que seu país terminasse na lista correta. Para evitar que alguém fosse punido, uma série de negociações enérgicas começou em todo o mundo na preparação da cúpula do G-20. O importante era mostrar boa vontade.

Em 1º de abril, um dia apenas antes da cúpula em Londres, as Ilhas Cayman conseguiram assinar sete tratados bilaterais – com as Ilhas Faroe, Islândia e Groenlândia, por exemplo – para cooperar em assuntos de taxação. Apesar de as concessões específicas feitas pelas Cayman, um território britânico de além-mar, serem modestas, o que conta é o espírito de aceitação.

A China também se ocupou de evitar o descrédito internacional. Segundo participantes das reuniões preparatórias para a cúpula, os negociadores chineses rejeitaram categoricamente a colocação de seu país na lista cinza, para não mencionar a lista negra.

Senão, ameaçaram os chineses, eles permitiriam o completo fracasso do projeto da lista – um resultado que a França, por sua vez, estava decidida a impedir. Antes da cúpula, o presidente francês Nicolas Sarkozy havia dito corajosamente aos eleitores franceses que pretendia mover uma guerra sem quartel contra os paraísos fiscais.

Outros diplomatas agora acreditam que poderia ter sido melhor esquecer completamente a lista, em especial porque não está claro o que acontecerá aos Estado transgressores. O comunicado de encerramento do G-20 em Londres apenas inclui uma vaga referência a “sanções”.

“A lista é um completo absurdo; o processo cheira mal”, diz o chanceler de Luxemburgo, Jean Asselborn, cujo país foi colocado na lista cinza da OCDE. Ele e seus concidadãos do Grão-Ducado – que tem uma população de apenas 485 mil mas abriga 3.402 fundos de investimento – sentiram-se ofendidos por terem sido agregados ao pior dos transgressores.

“Luxemburgo não protege os que praticam a evasão fiscal, mas também não quer que (o ministro alemão das Finanças Peer) Steinbrück possa descobrir com um apertar de botão quanto dinheiro um determinado indivíduo tem em sua conta”, diz Asselborn, irritado.

O fato de que a China foi colocada um degrau acima de Luxemburgo é mais que um tapa na cara para Asselborn. “Não consigo compreender como um país como a França pode apoiar a China enquanto se opõe a países da União Europeia ou à Suíça”, diz ele. “Isso destrói a cola que segura a Europa unida.”

Fonte: Valor Econômico – 15.04.09

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