Categoria: Nacionais

Milagre nos paraísos fiscais

Gilles Lapouge*
Milagre no paraíso fiscal. Desde que o G-20 voltou a sua atenção para essas praças, esses locais, onde o dinheiro mais sujo floresce e se regala, veem desaparecendo rapidamente. A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) repartiu esses países em três listas: a “negra”, a “cinza” e a “branca”, esta última agrupando países íntegros, como China ou Estados Unidos.

Ora, em 48 horas a lista negra se esvaziou. Costa Rica, Filipinas, Malásia e Uruguai, que estavam nessa lista, assumiram o compromisso de trocar informações fiscais. De imediato, foram transferidos para a cinza, ao lado de 34 países, como Bélgica, Luxemburgo, Mônaco, San Marino, que “não são cooperativos, mas prometeram cumprir as novas regras”.

Agora, o que se espera é que esses paraísos fiscais se corrijam e se convertam em “paraísos brancos”, o que é normal e “teologicamente” mais conveniente, já que é difícil imaginar um paraíso “negro” ser frequentado por demônios. Os “fundadores da Igreja” nos ocultaram os paraísos diabólicos.

Com o desaparecimento formidável de todos os “paraísos negros”, pode-se medir a eficácia do G-20. Os espíritos zombeteiros terão de se resignar: o G-20 funciona, mesmo. Bastou os 20 países mais ricos decidirem que, no futuro, todos os paraísos devem ser imaculados para Costa Rica ou Malásia se pintarem de branco.

Restam algumas anomalias. Surpreendeu que, nos paraísos cinzas não figurassem nem as ilhas Jersey e Guernesey nem Macau ou Hong Kong. Mas essas ausências não são estranhas. As ilhas Jersey e Guernesey dependem de Londres, onde ocorreu a reunião do G-20.

No caso de Hong Kong e Macau, havia o risco de desgostar a China. Então, encontrou-se uma solução: a China aceitou que Bahamas e Panamá, ligados aos EUA, passassem da lista negra para a cinza e, em troca, os EUA reconheceram que Macau e Hong Kong eram paraísos brancos, como todos os paraísos mais sensatos.

As Ilhas Virgens, ligadas aos EUA, também salvaram a sua pureza. Chipre e Malta, outrora britânicas, também escaparam, para o prazer de grandes grupos franceses. Pior. Não é preciso ir até às Ilhas Cayman para depositar dinheiro suspeito. Os verdadeiros “paraísos negros” estão sob o nosso nariz.

O politólogo australiano Jason Sharman conseguiu contornar o segredo bancário utilizando o Google e um pouco de dinheiro. O truque? Existem locais nos EUA e em outros países onde nem as autoridades nem os banqueiros pedem o nome dos clientes. Os fraudadores, em vez de abrir contas em seu nome, criam sociedades anônimas e transferem fundos em nome delas. Exemplos: Nevada (onde aparecem 400 mil sociedades por ano) ou Wyoming. Sharman tentou criar essas sociedades em 45 locais. Conseguiu em 17 vezes, das quais 13 em países da OCDE.

*O autor é correspondente em Paris
 
Fonte: O ESTADO DE S. PAULO – 09.04.09

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