Categoria: Internacionais

Vítimas de Madoff voltam-se para os ‘alimentadores’
Tom Lauricella, The Wall Street Journal
14/04/2009
 
As firmas que canalizaram dinheiro dos investidores para o esquema de Bernard Madoff provavelmente receberam pelo menos US$ 790 milhões em comissões ao longo dos anos, segundo um exame de processos legais e outros documentos que estão surgindo após a prisão de Madoff.
Agora, investidores e autoridades estão tentando recuperar parte desse dinheiro, embora ainda não se saiba até que ponto serão bem-sucedidos.
O Banco Santander S.A., um dos maiores “alimentadores” de Madoff, tinha cerca de US$ 3 bilhões aplicados com ele por meio de seu grupo de fundos de hedge, o Optimal Investment Services SA, segundo o banco. O Santander recebeu US$ 52,7 milhões em 2007 e US$ 43,3 milhões em 2006 em taxas de administração de seu Strategic U.S. Equity Series, um fundo administrado por Madoff, segundo um relatório anual de 2007.
As relações do Optimal com Madoff, que remontavam a mais de dez anos, foram qualificadas, em um relatório interno de 2008 examinado pelo Wall Street Journal, como “um negócio muito lucrativo para o grupo”. Na época a taxa de administração média cobrada pela firma era “superior a 2%” sobre o dinheiro aplicado com Madoff. O Santander não quis comentar.
Madoff confessou no mês passado ser culpado de perpetrar um enorme esquema de pirâmide financeira. Muitas de suas vítimas não esperam recuperar valores nem sequer próximos do montante de suas aplicações, e estão examinando todo tipo de possibilidade de recuperação parcial.
A devolução das taxas dos fundos alimentadores poderia representar uma “recuperação substancial” para os investidores fraudados, diz Stuart Singer, sócio da Boies, Schiller & Flexner, que processou o Fairfield Greenwich Group, o maior dos fundos alimentadores de Madoff. “Em última análise, a maior dificuldade será receber o dinheiro”, dependendo do valor dos bens de propriedade das firmas e de seus executivos.
Naturalmente, os processos movidos contra esses fundos podem não ter sucesso. Além disso, os prazos processuais podem restringir a recuperação, segundo vários advogados.
Quase quatro meses depois da prisão de Madoff, ainda não se sabe exatamente para onde foi o dinheiro.
As autoridades dizem que o esquema fraudulento de Madoff totalizou US$ 65 bilhões, quando se incluem os lucros fictícios, mas a quantia que os investidores de fato aplicaram com Madoff é provavelmente muito menor.
O advogado Irving Picard, nomeado para liquidar os bens de Madoff pelo tribunal que supervisiona a recuperação, localizou até agora US$ 1 bilhão em ativos de Madoff e sua firma. Não está claro se as taxas de administração recebidas pelos fundos alimentadores também serão alvo desses esforços de recuperação.
Fundos alimentadores como os do Santander já foram alvo de numerosos processos legais de pessoas que também tentam recuperar essas comissões. Além disso, autoridades reguladoras de Estados americanos já têm em mira os lucros dos fundos alimentadores.
Recentemente o procurador-geral do Estado de Nova York, Andrew Cuomo, moveu um processo civil de fraude contra J. Ezra Merkin, cujos fundos Ascot aplicavam dinheiro com Madoff. Segundo essa queixa, Merkin ganhou mais de US$ 169 milhões em taxas de administração por meio do Ascot, de 1995 até 2007. Merkin ganhou ainda mais em comissões sobre o dinheiro que era canalizado para Madoff através de dois outros fundos, segundo a queixa. O processo movido por Cuomo pode resultar na devolução forçada dessas comissões por parte de Merkin. O advogado de Merkin informa que ele está lutando contra essas acusações.
Outra operadora de fundos alimentadores foi a Tremont Group Holdings Inc.. Através de uma divisão, a Rye Select Broad Market Fund LP, cobrava uma comissão de 1% de gestão dos investimentos e 0,5% em taxas administrativas. Segundo documentos do fundo, este tinha US$ 2,3 bilhões em 30 de setembro de 2008, montante que lhe teria rendido US$ 34 milhões anuais em taxas e comissões. O Tremont, que começou a fazer negócios com Madoff em meados dos anos 90, também oferecia aos clientes o Rye Select Broad Market Portfolio Ltd. Esse fundo cobrava taxas totais de 1,95% sobre o dinheiro aplicado e possuía US$ 1,2 bilhão em 30 de setembro do ano passado, segundo documentos do fundo. Esse montante renderia taxas anuais de US$ 23,5 milhões. O Tremont enfrenta agora vários processos, inclusive um movido pela cidade de Fairfield, Connecticut, que está procurando recuperar as comissões. A firma informa que vai se defender contra esses processos.
O maior dos fundos alimentadores era operado pelo Fairfield Greenwich Group, que aplicou o dinheiro com Madoff pela primeira vez em 1989. Em seu principal veículo de canalização para Madoff, o fundo Fairfield Sentry, a firma recebeu, durante muitos anos, taxas de administração de 20% sobre os lucros obtidos pelos investidores. Em outubro de 2004 o fundo também começou a cobrar uma taxa de 1% sobre o total de recursos que geria.
Esse esquema de comissões pode ter dado ao Fairfield Greenwich pelo menos US$ 400 milhões de 2005 a 2008, segundo um processo movido contra a empresa pelas autoridades de valores mobiliários do Estado de Massachusetts. No processo, o Estado também pede a devolução das comissões.
Um porta-voz do Fairfield afirma que parte do dinheiro recebido era pago a funcionários de fora do Fairfield e a outras firmas que canalizavam dinheiro dos clientes para o Sentry. O porta-voz não quis fazer mais comentários.
 
Fonte: Valor Econômico – 14.04.09

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