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01

maio

2009

Dinheiro para nada

Dinheiro para nada
(Paul Krugman, The New York Times)
 
No dia 15 de julho de 2007, o jornal The New York Times publicou um artigo com o título “Os mais ricos dos ricos gabam-se de uma nova Idade do Ouro”. O mais badalado dos “novos titãs” era Sanford Weill, ex-chairman do Citigroup, segundo o qual ele e seus colegas do setor financeiro haviam ganhado imensas fortunas graças à sua contribuição para a sociedade.

Logo após a publicação do artigo, o edifício financeiro que Weill se vangloriava de ter ajudado a construir, ruiu,provocando imensos danos no caminho. Mesmo que seja possível evitar uma réplica da Grande Depressão, levará anos para a economia mundial se recuperar da crise atual.

Tudo isso explica por que deveríamos nos sentir incomodados por um artigo publicado pela edição do Times de domingo, mostrando que as remunerações nos bancos de investimento, que haviam despencado no ano passado, voltaram a subir vertiginosamente – alcançando os mesmos níveis de 2007.

Por que isso incomodaria? Em primeiro lugar, não há mais razões para se acreditar que os mágicos de Wall Street contribuam realmente com algo positivo para a sociedade e, muito menos, para justificar cheques descomunais.

Não esqueçamos de que a era dourada de Wall Street em 2007 era um fenômeno relativamente novo. Da década de 30 à de 80, aproximadamente, o setor bancário era um ambiente estável, um tanto tedioso, que, em média, não pagava melhor do que outros setores e mantinha as engrenagens da economia funcionando.

Portanto, por que motivo alguns banqueiros começaram de repente a ganhar imensas fortunas? Segundo fomos informados, eles foram premiados por sua criatividade e inovação financeira. Entretanto, a essa altura, é difícil pensar em inovações financeiras recentes que realmente tenham sido uma contribuição para a sociedade, e não em maneiras mais modernas de estourar bolhas, burlar normas e executar sofisticadas operações fraudulentas.

Num recente discurso de Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve (Fed, banco central americano) tentava defender a inovação financeira.

Seus exemplos de “ótimas inovações” na área de finanças eram: 1) os cartões de crédito – não exatamente uma ideia nova; 2) a proteção contra saques a descoberto; e 3) as hipotecas subprime. (Não estou inventando.) Foram essas então as coisas pelas quais os banqueiros receberam toda aquela dinheirama? Pode-se argumentar que temos uma economia de livre mercado e cabe ao setor privado decidir quanto valem seus funcionários. E isso me leva ao segundo ponto: na realidade, Wall Street deixou de fazer parte do setor privado. Agora, é um setor do Estado, tão dependente da ajuda oficial quanto os beneficiários da Assistência Temporária para as Famílias Necessitadas, ou seja, do Estado “previdenciário”.

Não estou falando apenas dos cerca de US$ 600 bilhões já destinados ao Tarp – Programa de ajuda aos ativos com problemas financeiros. Há também as imensas linhas de crédito oferecidas pelo Fed, empréstimos em larga escala do Federal Home Loan Banks, os contratos da AIG pagos pelo dinheiro dos contribuintes, a imensa expansão das garantias da Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC) e, mais amplamente, o respaldo implícito a todas as companhias financeiras consideradas excessivamente grandes ou estratégicas, para entrarem em colapso.

Pode-se argumentar ainda que é necessário salvar Wall Street para proteger a economia como um todo – com o que eu concordo. Mas, considerando todo o dinheiro dos contribuintes que está envolvido nisso, as companhias financeiras deveriam atuar como empresas de serviços públicos, e não voltar às mesmas práticas e aos cheques polpudos de 2007.

Além disso, pagar enormes somas a pilantras não é apenas vergonhoso. É perigoso. Afinal, por que os banqueiros assumiram riscos tão grandes? Porque o sucesso – ou mesmo uma aparência temporária de sucesso – oferecia recompensas gigantescas: os próprios executivos que estouraram suas companhias podiam e, na realidade, saíram com centenas de milhões de dólares. Agora, as mesmas compensações continuam a ser dadas a pessoas que fazem seus jogos arriscados com o respaldo do governo.

Mas o que está acontecendo? Por que essas remunerações voltaram a ser estratosféricas? Não podemos achar plausível a afirmação de que as companhias precisam pagar esses salários para preservar seus melhores funcionários: se o emprego no setor financeiro está despencando, para onde estarão indo essas pessoas?

Não, a verdadeira razão pela qual as financeiras voltaram a pagar salários tão altos é simplesmente porque podem. Elas voltaram a ganhar muito dinheiro (embora não tanto quanto afirmam), e por que não? Afinal, podem tomar dinheiro emprestado a um custo reduzido, graças às garantias oferecidas pelo governo, e emprestar esse dinheiro a taxas muito mais altas. Portanto, a ordem é aproveitar ao máximo, porque amanhã poderão ser enquadradas numa nova regulamentação.

Ou talvez não. Na imprensa financeira há uma sensação palpável de que a tempestade já passou: as ações subiram, a queda livre da economia se reverteu e o governo Obama provavelmente permitirá que os banqueiros se safem apenas com alguns discursos mais severos. Certo ou errado, os banqueiros aparentemente acreditam que, em breve, os negócios, do modo como costumavam realizar, voltarão à normalidade.

Só podemos esperar que nossos líderes mostrem que estão errados e façam as reformas necessárias. Em 2008, os banqueiros que ganhavam cifras astronômicas e assumiam riscos com o dinheiro dos outros derrubaram a economia mundial. A última coisa de que precisamos, agora, é dar-lhes a chance de fazer tudo isso de novo.

 

O Estado de São Paulo – 28.04.09