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Celebrado com atraso, Harry Markopolus tentou inúmeras vezes alertar as autoridades sobre a pirâmide financeira de US$ 65 bilhões

Numa pequena cidade de Massachusetts, o americano Harry Markopolos, administrador de fundos, temia por sua vida. Durante três anos ele portou um revólver Smith & Wesson, procurou bombas em seu carro e evitou caminhar por ruas escuras e vazias.

Aficionado por matemática, Markopolos desvendou o segredo do maior farsante de Wall Street. Celebrado com atraso por ter soado o alarme e antes ignorado por todos, tentou inúmeras vezes alertar as autoridades americanas sobre a pirâmide financeira de US$ 65 bilhões erguida por Bernard Madoff, que implodiu no fim de 2008, causando prejuízos bilionários a instituições de caridade, fundos de hedge, pensionistas e astros de Hollywood.

“Madoff foi um predador consciente. Frequentava casamentos e funerais. Nos velórios, ele abraçava as viúvas e dizia, “tomarei conta de você”, e pouco depois liquidava com elas”, diz Markopolos. “Nas ocasiões sociais, ele se comportava como um caçador. Todos pensavam nele como o simpático tio Bernie.”

Visto como obsessivo equivocado até a confissão de Madoff, Markopolos passou a temer cada vez mais pela própria segurança. “Pense no que eles estavam fazendo”, diz Markopolos, que temia uma reação tanto da parte de Madoff quanto dos inofensivos fundos “feeder” (criados sob medida para alimentar a pirâmide), que transferiam ao investidor o dinheiro de seus fregueses. “Se ele não encontrasse motivos para me matar, pense nos fundos feeder. O que aconteceria com o estilo de vida desses administradores? Todos enfrentarão a ruína financeira, serão processados e, com sorte, muitos acabarão na cadeia. Até que ponto as pessoas estão dispostas a proteger seu padrão de vida?”

Dotado de uma compreensão instintiva dos números por trás de complexos derivativos financeiros, Markopolos percebeu algo errado já em 1999, quando seu chefe na Boston Rampart Investment Management pediu que ele desenvolvesse um produto capaz de reproduzir os impressionantes resultados obtidos por Madoff.

Em seu livro recém-publicado, No One Would Listen (Ninguém quis escutar, editora John Wiley & Sons, sem tradução no Brasil), Markopolos descreve como se esforçou para compreender como Madoff conseguia obter lucros de 1% a 2% mês após mês, mantendo-se em território positivo durante 96% do tempo. Durante meses, ele tentou reproduzir o funcionamento da estratégia professada por Madoff, usando uma cesta de ações do S&P 500 protegidas do risco por meio de opções na bolsa de derivativos de Chicago.

“A matemática não deixava dúvidas”, disse Markopolos ao Guardian, em entrevista concedida num bar irlandês de Manhattan. “A proporção entre risco e lucro era simplesmente a maior já vista na história.”

É fácil dizer isso depois que o esquema foi desmascarado. Mas Markopolos afirmou a mesma coisa durante anos ? não apenas uma vez, mas continuamente. Ele procurou a comissão de valores mobiliários (SEC) ainda em 2001, entrou em contato com políticos e tentou convencer jornalistas a escrever sobre Madoff, conseguindo que algumas revistas de negócios publicassem matérias céticas a respeito do caso. Numa jogada elaborada, em 2005 ele entregou à SEC (a comissão de valores mobiliários americana) um dossiê detalhado intitulado: o maior fundo de hedge do mundo é uma fraude. Por que ninguém reparou nisso?

“O principal problema foi a incompetência”, diz Markopolos, segundo o qual a equipe da SEC ? composta principalmente por advogados, e não por financistas ? não dispunha do conhecimento técnico necessário para acompanhar o raciocínio dele. Além disso, a fraude era impensável. “O esquema era simplesmente grande demais.”

Alto e magro, vestindo um impecável terno creme e uma camisa rosa, Markopolos, 53 anos, transmite uma impressão de credibilidade, apesar de haver em sua fala um grau de certeza que pode à vezes parecer incômodo. Pai de três meninos pequenos, ele foi criticado por sua obsessão e acusado de buscar fama pessoal, enquanto outros se perguntam se ele teria sido motivado por uma recompensa financeira, coisa que Markopolos nega.

Excêntrico. O Wall Street Journal, que recebeu o dossiê sobre Madoff e nada fez por dois anos, recentemente o descreveu como “um pouco perturbado”. “É claro que sou um pouco excêntrico”, reconhece Markopolos, que revela em seu livro ter em certo momento mantido ao alcance uma velha máscara de gás do exército para o caso de os investigadores da SEC invadirem sua casa com gás lacrimogêneo.

“Quando se está denunciando uma fraude desse porte, é preciso ser excêntrico. É necessário acreditar firmemente em seus valores centrais e estar disposto a arriscar tudo para fazer aquilo que é certo.”

Testemunhar diante de uma comissão do congresso, diz ele, foi uma experiência muito agradável, e Markopolos gosta do interesse manifestado por autores de roteiros cinematográficos na história do caso ? ele sugere que talvez Nicolas Cage possa interpretar o papel dele, como um “nerd durão”.

Ele desistiu da administração de fundos em 2004 para se dedicar integralmente à investigação de fraudes financeiras e foi presenteado no ano passado pela Sociedade dos Analistas de Valores Mobiliários de Boston.

Cumprindo uma sentença de 150 anos numa prisão federal da Carolina do Norte, Madoff levou a SEC a reexaminar seus procedimentos e implementar uma série de reformas. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

OESP 29.03.2010

Vítimas de Madoff voltam-se para os ‘alimentadores’
Tom Lauricella, The Wall Street Journal
14/04/2009
 
As firmas que canalizaram dinheiro dos investidores para o esquema de Bernard Madoff provavelmente receberam pelo menos US$ 790 milhões em comissões ao longo dos anos, segundo um exame de processos legais e outros documentos que estão surgindo após a prisão de Madoff.
Agora, investidores e autoridades estão tentando recuperar parte desse dinheiro, embora ainda não se saiba até que ponto serão bem-sucedidos.
O Banco Santander S.A., um dos maiores “alimentadores” de Madoff, tinha cerca de US$ 3 bilhões aplicados com ele por meio de seu grupo de fundos de hedge, o Optimal Investment Services SA, segundo o banco. O Santander recebeu US$ 52,7 milhões em 2007 e US$ 43,3 milhões em 2006 em taxas de administração de seu Strategic U.S. Equity Series, um fundo administrado por Madoff, segundo um relatório anual de 2007.
As relações do Optimal com Madoff, que remontavam a mais de dez anos, foram qualificadas, em um relatório interno de 2008 examinado pelo Wall Street Journal, como “um negócio muito lucrativo para o grupo”. Na época a taxa de administração média cobrada pela firma era “superior a 2%” sobre o dinheiro aplicado com Madoff. O Santander não quis comentar.
Madoff confessou no mês passado ser culpado de perpetrar um enorme esquema de pirâmide financeira. Muitas de suas vítimas não esperam recuperar valores nem sequer próximos do montante de suas aplicações, e estão examinando todo tipo de possibilidade de recuperação parcial.
A devolução das taxas dos fundos alimentadores poderia representar uma “recuperação substancial” para os investidores fraudados, diz Stuart Singer, sócio da Boies, Schiller & Flexner, que processou o Fairfield Greenwich Group, o maior dos fundos alimentadores de Madoff. “Em última análise, a maior dificuldade será receber o dinheiro”, dependendo do valor dos bens de propriedade das firmas e de seus executivos.
Naturalmente, os processos movidos contra esses fundos podem não ter sucesso. Além disso, os prazos processuais podem restringir a recuperação, segundo vários advogados.
Quase quatro meses depois da prisão de Madoff, ainda não se sabe exatamente para onde foi o dinheiro.
As autoridades dizem que o esquema fraudulento de Madoff totalizou US$ 65 bilhões, quando se incluem os lucros fictícios, mas a quantia que os investidores de fato aplicaram com Madoff é provavelmente muito menor.
O advogado Irving Picard, nomeado para liquidar os bens de Madoff pelo tribunal que supervisiona a recuperação, localizou até agora US$ 1 bilhão em ativos de Madoff e sua firma. Não está claro se as taxas de administração recebidas pelos fundos alimentadores também serão alvo desses esforços de recuperação.
Fundos alimentadores como os do Santander já foram alvo de numerosos processos legais de pessoas que também tentam recuperar essas comissões. Além disso, autoridades reguladoras de Estados americanos já têm em mira os lucros dos fundos alimentadores.
Recentemente o procurador-geral do Estado de Nova York, Andrew Cuomo, moveu um processo civil de fraude contra J. Ezra Merkin, cujos fundos Ascot aplicavam dinheiro com Madoff. Segundo essa queixa, Merkin ganhou mais de US$ 169 milhões em taxas de administração por meio do Ascot, de 1995 até 2007. Merkin ganhou ainda mais em comissões sobre o dinheiro que era canalizado para Madoff através de dois outros fundos, segundo a queixa. O processo movido por Cuomo pode resultar na devolução forçada dessas comissões por parte de Merkin. O advogado de Merkin informa que ele está lutando contra essas acusações.
Outra operadora de fundos alimentadores foi a Tremont Group Holdings Inc.. Através de uma divisão, a Rye Select Broad Market Fund LP, cobrava uma comissão de 1% de gestão dos investimentos e 0,5% em taxas administrativas. Segundo documentos do fundo, este tinha US$ 2,3 bilhões em 30 de setembro de 2008, montante que lhe teria rendido US$ 34 milhões anuais em taxas e comissões. O Tremont, que começou a fazer negócios com Madoff em meados dos anos 90, também oferecia aos clientes o Rye Select Broad Market Portfolio Ltd. Esse fundo cobrava taxas totais de 1,95% sobre o dinheiro aplicado e possuía US$ 1,2 bilhão em 30 de setembro do ano passado, segundo documentos do fundo. Esse montante renderia taxas anuais de US$ 23,5 milhões. O Tremont enfrenta agora vários processos, inclusive um movido pela cidade de Fairfield, Connecticut, que está procurando recuperar as comissões. A firma informa que vai se defender contra esses processos.
O maior dos fundos alimentadores era operado pelo Fairfield Greenwich Group, que aplicou o dinheiro com Madoff pela primeira vez em 1989. Em seu principal veículo de canalização para Madoff, o fundo Fairfield Sentry, a firma recebeu, durante muitos anos, taxas de administração de 20% sobre os lucros obtidos pelos investidores. Em outubro de 2004 o fundo também começou a cobrar uma taxa de 1% sobre o total de recursos que geria.
Esse esquema de comissões pode ter dado ao Fairfield Greenwich pelo menos US$ 400 milhões de 2005 a 2008, segundo um processo movido contra a empresa pelas autoridades de valores mobiliários do Estado de Massachusetts. No processo, o Estado também pede a devolução das comissões.
Um porta-voz do Fairfield afirma que parte do dinheiro recebido era pago a funcionários de fora do Fairfield e a outras firmas que canalizavam dinheiro dos clientes para o Sentry. O porta-voz não quis fazer mais comentários.
 
Fonte: Valor Econômico – 14.04.09

 Investidores querem liquidar Madoff
Christopher Scinta e Dawn McCarty, Bloomberg News, de Nova York
14/04/2009
 
Os investidores de Bernard Madoff moveram uma petição involuntária de falência contra o administrador de ativos, condenado pela Justiça, para garantir que todos os seus bens sejam empregados para ressarcir as vítimas de seu esquema piramidal de US$ 65 bilhões. A petição, protocolada ontem em Nova York por cinco investidores no Tribunal Federal de Falências de Manhattan, visa empurrar o ex-gestor de fundos de investimento para a condição falimentar de liquidação.
A liquidação está prevista no capítulo 7 da lei de falências dos Estados Unidos. A petição relaciona US$ 64 milhões em um pedido de indenização pelos prejuízos causados pela quebra do fundo de Madoff, acusado de gestão fraudulenta. O juiz federal de primeira instância Louis Stanton, de Manhattan, reverteu no último dia 10 de abril sua decisão de dezembro, que impedia os investidores de entrar com o pedido.
A Securities and Exchange Commission (SEC, órgão regulador do mercado de capitais americano), o Departamento de Justiça dos EUA e a Securities Investor Protection Corp. foram contrários ao pedido realizado pelos investidores.
 
Fonte: Valor Econômico – 14.04.09

No Brasil, Madoff dificilmente iria para a prisão, admite procurador
De São Paulo

Se estivesse no Brasil, o golpista americano Bernard Madoff dificilmente ficaria preso, mesmo depois de ter montado a pirâmide que prejudicou milhares de investidores e provocou prejuízo de US$ 62 bilhões, admite Marcelo Moscogliato, procurador da República junto ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região, em São Paulo, especialista em crimes financeiros. Madoff foi condenado a 150 anos e preso pouco mais de três meses depois de o caso ter sido descoberto. “Ele era agente de mercado regularizado, tinha autorização para oferecer fundos”, afirma Moscogliato.
No Brasil, Madoff seria enquadrado em crime financeiro continuado e gestão fraudulenta e temerária, com pena de um a oito anos de prisão, explica. A pena poderia ser ampliada com outros crimes como sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. “Mas a pena seria menor que a dos EUA e não seria um processo tão célere, pois haveria uma cascata de recursos que terminaria só no Supremo (Tribunal Federal).” Além disso, ele não seria preso até o trânsito em julgado, o que levaria anos. “O sistema fornece os elementos para ele evitar a sentença.”
A parceria com a CVM vem ajudando o Ministério Público a agir contra as irregularidades do mercado com mais rapidez, afirma Moscogliato. No caso das pirâmides, ele acredita que a única forma de evitar é educar as pessoas. “O investidor deve desconfiar de alguém que oferece uma vantagem que ninguém mais tem, não existe almoço grátis nem ganho alto sem risco de perda”, diz. “É a velha história do avestruz, do boi, coisas que mostram que o investidor é passivo ao cuidar de suas aplicações e fica exposto a esses milagres.”
A colaboração dos investidores também é fundamental para as investigações, diz Moscogliato. “Uma denúncia sobre uma pirâmide no Acre será investigada, mas se houver dados sobre como a oferta foi feita, cópias de e-mails ou do site, a conta onde o dinheiro seria depositado e os contatos dos organizadores aumentam as chances de pegarmos os responsáveis”, diz. “Mas o importante é que o investidor preste atenção onde investe o dinheiro.”
Para denunciar golpes, a Procuradoria de São Paulo tem sites: ww w.prsp.mpf.gov.br ou www.prr3. mpf.gov.br; e o telefone (11) 3269 5000. Para outros estados, basta trocar as letras SP no endereço eletrônico pelas do Estado onde o investidor está, o seja, no Rio, www.prrj.mpf.gov.br.
Analistas lembram porém que, às vezes, o investidor não denuncia por se sentir envergonhado por ter caído no golpe. Outros, aplicaram dinheiro não declarado e temem ter depois de prestar contas com a Receita.
Segundo Moscogliato, uma vez que entrou num esquema de pirâmide, a chance de recuperar o dinheiro é pequena. “Uma coisa típica das pirâmides é a péssima gestão, o responsável gasta o dinheiro das pessoas e, se investe, faz isso sem muito conhecimento ou cuidado, o que dificulta a restituição.”
Fonte: Valor Econômico – 07.04.09