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Arantes tenta renegociar dívida e já admite vender o controle
Grupo, que pediu recuperação judicial em janeiro, tem um débito total de R$ 1,3 bilhão
David Friedlander
 
“Quando tudo isso acabar, quero ficar uns dois anos sem ver carne na frente. Eu viro vegetariano.” Criado numa família de pecuaristas do interior de São Paulo, louco por churrasco, Aderbal Arantes Jr. não pensa seriamente em abandonar a picanha e o cupim. Mas sua frase ilustra o momento complicado do grupo Arantes, um dos maiores exportadores de carne do País, do qual ele é um dos donos. Desgastado na praça financeira desde que pediu recuperação judicial, em janeiro, ele agora procura uma reaproximação com os credores. Diz que deseja um acordo com os bancos e que aceita até vender o grupo para se livrar das dívidas.

O grupo deve R$ 1,1 bilhão a 24 bancos – o débito total é de R$ 1,3 bilhão. “Nossa intenção é sair do problema”, afirma Aderbal Arantes. “Se precisar vender parte, vendemos. Se precisar vender tudo, fazemos também. Só acho que agora o momento não é bom, porque as empresas do grupo estão muito depreciadas. O melhor seria remontar o grupo e negociar melhor lá na frente.”

Dono de marcas conhecidas, como Frigo Hans, Frigo Eder e Frango Sertanejo,o Arantes faturou R$ 1,6 bilhão no ano passado. Nos últimos dois meses, o grupo demitiu cerca de 3 mil pessoas e parou oito de suas treze unidades. Contratou a consultoria PricewaterhouseCoopers para prestar assessoria na reestruturação e na negociação com os credores. E o primeiro passo é reatar o diálogo com os bancos.

O relacionamento com eles azedou desde que o Arantes conseguiu levar a recuperação judicial para Nova Monte Verde, cidade de 8 mil habitantes no interior de Mato Grosso. O caso tem muitos pontos polêmicos. Um deles é a própria escolha da cidade, já que a sede do grupo fica em São José do Rio Preto (SP). Ligada ao resto do mundo por uma estrada de terra que fica intransitável quando chove forte, Nova Monte Verde nem juiz tinha.

Em razão da precariedade do lugar, os bancos entenderam essa opção como uma manobra para dificultar a defesa dos credores. A suspeita foi reforçada no mês passado, quando uma sentença enviada por fax pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso sumiu no cartório de Nova Monte Verde, induzindo a erro o então juiz responsável pelo caso. Por causa do erro, o magistrado determinou o bloqueio de R$ 300 milhões dos bancos credores do Arantes.

“Não houve má-fé na escolha da cidade”, afirma Aderbal Arantes. “Decidimos entrar em Nova Monte Verde porque lá fica nossa unidade mais importante e porque lá está a maioria de nossos credores (os criadores de gado).” Com a recuperação judicial emperrada na Justiça, Arantes afirma que deseja virar essa página.

Na semana passada, a Price reuniu os bancos para apresentar informações e iniciar o processo de reaproximação. “Dentro de aproximadamente duas semanas queremos chamar os bancos para uma segunda reunião e apresentar uma proposta”, afirma Francisco Brandão, da Price. “Queremos negociar, dentro ou fora de um processo de recuperação judicial.”

Até o aprofundamento da crise global, o grupo Arantes era tratado como uma estrela emergente pelo mercado financeiro. Pilotado pelo Bradesco, pelo Santander e pelo Credit Suisse, o grupo iniciou, dois anos atrás, um agressivo plano de crescimento e diversificação. Nesse período, foram investidos cerca de R$ 400 milhões.

A ideia era fazer o grupo crescer e buscar uma fusão com um outro frigorífico em novembro passado. A última etapa do plano era abrir o capital na Bolsa de Valores de São Paulo, captar uma bolada e repartir os lucros. A crise, porém, chegou antes e acabou com a festa.
FRASE

Aderbal Arantes Jr.
Presidente e um dos donos do Arantes

“Se precisar vender parte, vendemos. Se precisar vender tudo, fazemos também. Só acho que o momento agora não é bom, porque
as empresas do grupo estão muito depreciadas”
 
Fonte: O ESTADO DE S. PAULO – 09.04.09